LUCAS CONTA
NA CIDADE DELTA O UM VELHO VELOCISTA
Ainda bem que a bruxa me deu o cavalo. As informações que me passaram de que em no máximo cinco horas eu estaria fora do deserto estavam muito desatualizadas. Cavalgando a uma velocidade impressionante levei uns dois dias para sair do deserto. Junto com o cavalo que a bruxa deixou, havia também água, comida e uma barraca que pude usar para passar a noite.
Algo que chamou minha atenção foi o cantil. Como iria devolver tudo que a bruxa me deu, incluindo o cantil, decidi tomar a água do dela para não correr o risco de secar o meu e ficar sem. Mas a água do cantil dela simplesmente não acabava. Deveria caber um litro no cantil, pois o meu era de um litro e ambos eram do mesmo tamanho. Mas eu tomei água praticamente o dia inteiro e o cantil sempre estava cheio. E toda vez que tomava água do cantil sentia minha forças revigoradas.
Por falar em forças, comecei a me questionar sobre o deserto. Do jeito que eu vinha antes, andando, eu não sentia cansaço nenhum. Agora que eu dispunha de um cavalo a minha disposição, eu me sentia muito cansado depois de horas de viagem. Graças ao bom deus que o deserto já havia ficado para trás e agora eu estava na cidade Delta.
Confesso que fiquei impressionado com a cidade. Assim que cheguei, fiquei surpreso com o número de pessoas. Talvez para quem já viajou por várias partes do planeta não seja nada demais. Mas pra mim que até então nunca tinha saído do meu vilarejo, aquilo era fantástico.
No meu vilarejo existia apenas um mercado que não dispunha de muita coisa. Se você não encontrasse o que precisasse lá. Não tinha outro local a recorrer. Já ali, barracas e mais barracas espalhadas pelas ruas que vendiam tudo que você pudesse imaginar: roupas, tiras de couro cru, espadas, arcos e flechas, frutas, verduras e uma infinidade de produtos.
Para evitar esbarrar em alguém eu desmontei do cavalo, devo dizer que com certa dificuldade. Apresar de não ter muitos problemas para cavalgar, desmontar do animal sempre foi difícil pra mim. Então, puxando o cavalo eu passava bem perto das barracas para ver de perto o que se tinha para comprar.
Estava na rua, que depois fui descobrir ser a rua da feira. Olhando para um monte de garrafas que continham escorpiões em conserva (não, eu não comi, fui ver só por curiosidade) quando na barraca do outro lado da rua que parecia vender enfeites e utensílios para casa, jarros, vasos, candelabros essas coisas, um senhor que já tinha uma idade avançada se desentendeu com o dono da barraca. Pelo que pude ouvir da discussão entre eles, o senhor queria comprar um tapete feito num lugar chamado Tebas, mas o vendedor se recusava a vender pois ele já devia dinheiro de um jarro. Só iria vender depois que este pagasse.
“Por favor Basturk. Hoje é aniversário de minha esposa e eu não posso deixar passar a data em branco. Daqui sete dias eu juro que lhe pago tudo.” – disse o velho ao dono da barraca.
“Semana passada você veio aqui e comprou um jarro fiado com este mesmo pretexto. Agora você vem querer comprar fiado novamente é tão burro que vem com a mesma história. Negativo. E vá embora logo. Não vê que esta espantando meus fregueses. Saia antes que eu mande os guardas te prender seu velho bêbado, ou eu mesmo acabe com sua raça”.
Falando isso o sujeito, este tal de Basturk, empurrou o velho que caiu no meio da rua. Todos começaram a rir dele. Fazendo chingamentos e atirando coisas nele. Fiquei com pena e decidi ajuda-lo a se levantar. Grande erro.
Amarrei a corda do cavalo num toco e fui até o senhor caído no chão e puxando ele pelos braços ajudei a ficar de pé. Este nem me agradeceu e começou a me pedir dinheiro usando como justificativa a mesma história que disse para Basturk, só que o aniversariante agora era sua filha.
“Por favor rapaz, Hoje é aniversário de minha filha e eu não posso deixar passar a data em branco. Me empreste algumas moedas. Daqui sete dias eu juro que lhe pago tudo”.
Dei um sorrisinho sem graça. As pessoas pareceram não gostar que eu ajudei o velho pois ficaram me olhando de uma forma meio estranha. Então tentei me afastar do velho mas ele não largava o meu braço. Fiquei nervoso e dei um empurrão mais forte e este caiu, não sem antes puxar a cordinha que amarrava a túnica que a bruxa me dera. O colar que minha irmã me dera ficou exposto. Os olhos do velho ficaram cravados nele. Ele se levantou com uma agilidade que fiquei impressionado. Mas não saiu do lugar.
“Não pode ser. Os fragmentos estão perdidos há muito tempo a menos que você... minha nossa. Nem acredito nisso. Vou levar você ao mestre. Serei a readmitido e recompensado com todo ouro e bebida que eu quiser.”
A forma insana como o velho disse isso só não me assustou mais porque o fato dele ser a segunda pessoa que se refere ao colar como se fosse algo valioso me intrigou. Nem tanto pela forma de falar mais pela forma como, tanto ele quanto a bruxa ficaram olhando para ele como se estivessem hipnotizados.
Não queria que outras pessoas ficassem dessa mesma forma olhando para meu colar. Coloquei ele em baixo da camiseta, dei um laço no cordão da túnica e me dirigi até onde eu havia deixado meu cavalo. Desamarrei a corda do tronco onde ele estava preso e montei no cavalo.
O velho ficou tão fascinado pelo colar que nem percebeu que eu estava me retirando. Infelizmente foi só eu pensar isso que ele se virou pra mim e veio correndo em minha direção. A agilidade de seu movimentos contrastavam totalmente com o velho aparentemente sem forças que eu ajudei a levantar. Movia-se com muita rapidez e quase que ele me segurou, fiz sinal para o cavalo correr e ele saiu em disparada pela rua cheia de gente abrindo caminho na multidão. Dobrei a esquerda que dava numa rua que tinha movimento, não tanto quanto a que eu estava. Olhei para trás e pra minha surpresa o velho estava correndo atrás da gente, não mais que três metros de distância.
Fiquei totalmente desesperado. Já tinha visto pessoas rápidas, mas como aquele velho, não. Golpeei o cavalo que aumentou de velocidade. A rua se dividia em duas. Sem pensar guiei o cavalo para esquerda e, infelizmente demos numa rua como a que eu tinha encontrado o velho, um mercado a céu aberto. Tive que diminuir a velocidade para evitar bater alguém. Por mais que as pessoas se afastassem, com medo de serem atropeladas por um cavalo a toda velocidade, não dava pra cavalgar muito rápido. Claro que o aglomero de gente também dificultava a movimentação do velho, infelizmente nem tanto quanto nós.
Depois de esbarrar em algumas pessoas e derrubar algumas barracas, conseguimos entrar numa rua sem movimento. Para o nosso azar era uma rua sem saída. Uma parede de uns dez metros impedia nossa passagem. Dei meia volta no cavalo e antes que pudesse retornar o velho virou a rua e parou na nossa frente. Estávamos encurralados.
“Não adianta tentar fugir do mensageiro criança. Depois que acabar com você, irei levar o fragmento para o mestre e serei readmitido entre os seus.”
Estava apavorado. Não sei o que aconteceu. O velho parecia que tinha envelhecido mais duzentos anos. Sua pele estava ressecada pronunciando dois olhos que pareciam que iriam cair de seu rosto a qualquer momento. Mas este aspecto aparentemente debilitado em nada parecia atrapalhar a condição física do velho.
“Isso é uma pedra sem valor. Minha irmã achou ela e me fez um colar. Se você me prometer que não irá me fazer nenhum dano eu lhe dou ela. Mas tem que prometer, pela honra de seus ancestrais”.
O velho ficou quieto ponderando minha proposta. Por fim sorriu.
“Tudo bem garoto. Desça deste cavalo e me passe o colar que, pela honra de meus ancestrais, prometo deixar você ir em paz”.
Talvez vocês estejam me achando muito ingrato, pois daria um presente que minha irmã me deu para que quando eu estivesse em momentos de indecisão, olhasse pra ele e, o colar me trouxesse sorte. Porém não tinha alternativa. Não tinha como fugir. Ou dava o colar ou morria. Acho que minha irmã não ficaria triste em saber que o colar que ela me fez serviu para salvar minha vida.
Desci do cavalo, puxei de dentro da camisa o colar e tirei do pescoço. Me dirigi ao velho e parando a um distância joguei o colar no chão. Não queria correr o risco dele chegar próximo a mim.
O velho foi caminhando calmamente até o colar. Pegou ele e ficou olhando para o colar e eu pude ver um brilho negro em seus olhos. Ele estava colocando o colar no bolso quando um clarão surgiu atrás dele. Ele virou rapidamente para o local do clarão mas a luz era muito forte e ofuscou minha visão. Quando o clarão diminui, o colar estava jogado no chão ao lado do meu pé. O velho estava caído em direção a rua pela qual tínhamos vindo, e entre nós dois, havia um homem alto. Talvez um metro e oitenta. Usava uma túnica igual a que a bruxa me dera no deserto. Ele baixou o capuz e um senhor de cabeça raspada com um abarba proeminente estava sorrindo pra mim.
“Sara não lhe avisou para não se meter em problemas. Você está bem¿”
Disse que sim, pelo menos eu acho que falei. Estava de um jeito que não sei nem descrever. Parece que este homem veio de um raio.
O velho se levantou e saiu correndo. Apontei para o homem na minha frente que o velho estava fugindo. Ele deu uma olhada e depois deu de ombro.
“Não temos tempo pra isso. Acho que eles já te descobriram. Pegue seu colar e trate de escondê-lo. Tenho que te esconder até que Sara regresse.”
Ele montou no cavalo e pediu para que eu montasse também. Peguei o colar e pendurei no pescoço colocando por dentro da camisa. Não estava nenhum pouco a fim de seguir aquele homem mas, acho que não posso recusar a oferta dele já que um louco idoso estava a me perseguir. Mas não iria sem antes obter alguma resposta.
“Primeiro, não vou a lugar nenhum até você me dizer o que está acontecendo. Quase que esse velho louco me mata. Quem é ele, e quem é você¿”
“Vamos garoto, no caminho te conto. Mas só pra você saber, eu sou o Boticário que a feiticeira que encontraste no deserto mandou você procurar. E quanto ao velho. Fique tranquilo. Pelo menos por hora ele não vai te importunar”
“Mas quem é ele¿ Se não me disser não saiu daqui. Ele se referiu a si próprio como mensageiro”
Nem imaginam a coragem que tive que juntar para dizer isso. Ele deveria ser muito forte para fazer aquele velho velocista fugir. Imagina o que ele não faria comigo!
Dando um sorriso ele se aproximou de mim e falou: “ Sim, era um mensageiro. Um tipo de demônio”.
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Aqui finda o segundo capítulo do livro "A Pedra" (titulo provisório).
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