domingo, 15 de julho de 2012

A PEDRA: cap.: II


LUCAS CONTA

                   NA CIDADE DELTA O UM VELHO VELOCISTA
        Ainda bem que a bruxa me deu o cavalo. As informações que me passaram de que em no máximo cinco horas eu estaria fora do deserto estavam muito desatualizadas. Cavalgando a uma velocidade impressionante levei uns dois dias para sair do deserto. Junto com o cavalo que a bruxa deixou, havia também água, comida e uma barraca que pude usar para passar a noite. 
Algo que chamou minha atenção foi o cantil. Como iria devolver tudo que a bruxa me deu, incluindo o cantil, decidi tomar a água do dela para não correr o risco de secar o meu e ficar sem. Mas a água do cantil dela simplesmente não acabava. Deveria caber um litro no cantil, pois o meu era de um litro e ambos eram do mesmo tamanho. Mas eu tomei água praticamente o dia inteiro e o cantil sempre estava cheio. E toda vez que tomava água do cantil sentia minha forças revigoradas. 
        Por falar em forças, comecei a me questionar sobre o deserto. Do jeito que eu vinha antes, andando, eu não sentia cansaço nenhum. Agora que eu dispunha de um cavalo a minha disposição, eu me sentia muito cansado depois de horas de viagem. Graças ao bom deus que o deserto já havia ficado para trás e agora eu estava na cidade Delta.
         Confesso que fiquei impressionado com a cidade. Assim que cheguei, fiquei surpreso com o número de pessoas. Talvez para quem já viajou por várias partes do planeta não seja nada demais. Mas pra mim que até então nunca tinha saído do meu vilarejo, aquilo era fantástico. 
        No meu vilarejo existia apenas um mercado que não dispunha de muita coisa. Se você não encontrasse o que precisasse lá. Não tinha outro local a recorrer. Já ali, barracas e mais barracas espalhadas pelas ruas que vendiam tudo que você pudesse imaginar: roupas, tiras de couro cru, espadas, arcos e flechas, frutas, verduras e uma infinidade de produtos.
       Para evitar esbarrar em alguém eu desmontei do cavalo, devo dizer que com certa dificuldade. Apresar de não ter muitos problemas para cavalgar, desmontar do animal sempre foi difícil pra mim. Então, puxando o cavalo eu passava bem perto das barracas para ver de perto o que se tinha para comprar.
Estava na rua, que depois fui descobrir ser a rua da feira. Olhando para um monte de garrafas que continham escorpiões em conserva (não, eu não comi, fui ver só por curiosidade) quando na barraca do outro lado da rua que parecia vender enfeites e utensílios  para casa, jarros, vasos, candelabros essas coisas, um senhor que já tinha uma idade avançada se desentendeu com o dono da barraca. Pelo que pude ouvir da discussão entre eles, o senhor queria comprar um tapete feito num lugar chamado Tebas, mas o vendedor se recusava a vender pois ele já devia dinheiro de um jarro. Só iria vender depois que este pagasse.
      “Por favor Basturk. Hoje é aniversário de minha esposa e eu não posso deixar passar a data em branco. Daqui sete dias eu juro que lhe pago tudo.” – disse o velho ao dono da barraca.
      “Semana passada você veio aqui e comprou um jarro fiado com este mesmo pretexto. Agora você vem querer comprar fiado novamente é tão burro que vem com a mesma história. Negativo. E vá embora logo. Não vê que esta espantando meus fregueses. Saia antes que eu mande os guardas te prender seu velho bêbado, ou eu mesmo acabe com sua raça”.
Falando isso o sujeito, este tal de Basturk, empurrou o velho que caiu no meio da rua. Todos começaram a rir dele. Fazendo chingamentos e atirando coisas nele. Fiquei com pena e decidi ajuda-lo a se levantar. Grande erro. 
       Amarrei a corda do cavalo num toco e fui até o senhor caído no chão e puxando ele pelos braços ajudei a ficar de pé. Este nem me agradeceu e começou a me pedir dinheiro  usando como justificativa a mesma história que disse para Basturk, só que o aniversariante agora era sua filha.
       “Por favor rapaz, Hoje é aniversário de minha filha e eu não posso deixar passar a data em branco.  Me empreste algumas moedas. Daqui sete dias eu juro que lhe pago tudo”.
       Dei um sorrisinho sem graça. As pessoas pareceram não gostar que eu ajudei  o velho pois ficaram me olhando de uma forma meio estranha. Então  tentei me afastar do velho mas ele não largava o meu braço. Fiquei nervoso e dei um empurrão mais forte e este caiu, não sem antes puxar a cordinha que amarrava a túnica que a bruxa me dera. O colar que minha irmã me dera ficou exposto. Os olhos do velho ficaram cravados nele. Ele se levantou com uma agilidade que fiquei impressionado. Mas não saiu do lugar.
      “Não pode ser. Os fragmentos estão perdidos há muito tempo a menos que você... minha nossa. Nem acredito nisso. Vou levar você ao mestre. Serei a readmitido e recompensado com todo ouro e bebida que eu quiser.”
      A forma insana como o velho disse isso só não me assustou mais porque o fato dele ser a segunda pessoa que se refere ao colar como se fosse algo valioso me intrigou. Nem tanto pela forma de falar mais pela forma como, tanto ele quanto a bruxa ficaram olhando para ele como se estivessem hipnotizados.
Não queria que outras pessoas ficassem dessa mesma forma olhando para meu colar. Coloquei ele em baixo da camiseta, dei um laço no cordão da túnica e me dirigi até onde eu havia deixado meu cavalo. Desamarrei a corda do tronco onde ele estava preso e montei no cavalo.
       O velho ficou tão fascinado pelo colar que nem percebeu que eu estava me retirando. Infelizmente foi só eu pensar isso que ele se virou pra mim e veio correndo em minha direção. A agilidade de seu movimentos contrastavam totalmente com o velho aparentemente sem forças que eu ajudei a  levantar. Movia-se com muita rapidez e quase que ele me segurou, fiz sinal para o cavalo correr e ele saiu em disparada pela rua cheia de gente abrindo caminho na multidão. Dobrei a esquerda que dava numa rua que tinha movimento, não tanto quanto a que eu estava. Olhei para trás e pra minha surpresa o velho estava correndo atrás da gente, não mais que três metros de distância.
       Fiquei totalmente desesperado. Já tinha visto pessoas rápidas, mas como aquele velho, não. Golpeei o cavalo que aumentou de velocidade. A rua se dividia em duas. Sem pensar guiei o cavalo para esquerda e, infelizmente demos numa rua como a que eu tinha encontrado o velho, um mercado a céu aberto. Tive que diminuir a velocidade para evitar bater alguém. Por mais que as pessoas se afastassem, com medo de serem atropeladas por um cavalo a toda velocidade, não dava pra cavalgar muito rápido. Claro que o aglomero de gente também dificultava a movimentação do velho, infelizmente nem tanto quanto nós. 
       Depois de esbarrar em algumas pessoas e derrubar algumas barracas, conseguimos entrar numa rua sem movimento. Para o nosso azar era uma rua sem saída. Uma parede de uns dez metros impedia nossa passagem. Dei meia volta no cavalo e antes que pudesse retornar o velho virou a rua e parou na nossa frente. Estávamos encurralados.
      “Não adianta tentar fugir do mensageiro criança. Depois que acabar com você, irei levar o fragmento para o mestre e serei readmitido entre os seus.”
       Estava apavorado. Não sei o que aconteceu. O velho parecia que tinha envelhecido mais duzentos anos. Sua pele estava ressecada pronunciando dois olhos que pareciam que iriam cair de seu rosto a qualquer momento. Mas este aspecto aparentemente debilitado em nada parecia atrapalhar a condição física do velho.
       “Isso é uma pedra sem valor. Minha irmã achou ela e me fez um colar. Se você me prometer que não irá me fazer nenhum dano eu lhe dou ela. Mas tem que prometer, pela honra de seus ancestrais”.
       O velho ficou quieto ponderando minha proposta. Por fim sorriu.
      “Tudo bem garoto. Desça deste cavalo e me passe o colar que, pela honra de meus ancestrais, prometo deixar você ir em paz”.
      Talvez vocês estejam me achando muito ingrato, pois  daria um presente que minha irmã me deu para que quando eu estivesse em momentos de indecisão, olhasse pra ele e, o colar me trouxesse sorte. Porém não tinha alternativa. Não tinha como fugir. Ou dava o colar ou morria. Acho que minha irmã não ficaria triste em saber que o colar que ela me fez serviu para salvar minha vida.    
     Desci do cavalo, puxei de dentro da camisa o colar e tirei do pescoço. Me dirigi ao velho e parando a um distância joguei o colar no chão. Não queria correr o risco dele chegar próximo a mim. 
     O velho foi caminhando calmamente até o colar. Pegou ele e ficou olhando para o colar e eu pude ver um brilho negro em seus olhos. Ele estava colocando o colar no bolso quando um clarão surgiu atrás dele. Ele virou rapidamente para o local do clarão mas a luz era muito forte e ofuscou minha visão. Quando o clarão diminui, o colar estava jogado no chão ao lado do meu pé. O velho estava caído em direção a rua pela qual tínhamos vindo, e entre nós dois, havia um homem alto. Talvez um metro e oitenta. Usava uma túnica igual a que a bruxa me dera no deserto. Ele baixou o capuz e um senhor de cabeça raspada com um abarba proeminente estava sorrindo pra mim.
     “Sara não lhe avisou para não se meter em problemas. Você está bem¿”
Disse que sim, pelo menos eu acho que falei. Estava de um jeito que não sei nem descrever. Parece que este homem veio de um raio. 
      O velho se levantou e saiu correndo. Apontei para o homem na minha frente que o velho estava fugindo. Ele deu  uma olhada e depois deu de ombro. 
    “Não temos tempo pra isso. Acho que eles já te descobriram. Pegue seu colar e trate de escondê-lo.      Tenho que te esconder até que Sara regresse.”
       Ele montou no cavalo e pediu para que eu montasse também. Peguei o colar e pendurei no pescoço colocando por dentro da camisa. Não estava nenhum pouco a fim de seguir aquele homem mas, acho que não posso recusar a  oferta dele já que um louco idoso estava a me perseguir. Mas não iria sem antes obter alguma resposta.
      “Primeiro, não vou a lugar nenhum até você me dizer o que está acontecendo. Quase que esse velho louco me mata. Quem é ele, e quem é você¿”
      “Vamos garoto, no caminho te conto. Mas só pra você saber, eu sou o Boticário que a feiticeira que encontraste no deserto mandou você procurar. E quanto ao velho. Fique tranquilo. Pelo menos por hora ele não vai te importunar”
       “Mas quem é ele¿ Se não me disser não saiu daqui. Ele se referiu a si próprio como mensageiro”
     Nem imaginam a coragem que tive que juntar para dizer isso. Ele deveria ser muito forte para fazer aquele velho velocista fugir. Imagina o que ele não faria comigo!
       Dando um sorriso ele se aproximou de mim e falou: “ Sim, era um mensageiro. Um tipo de demônio”.             

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Aqui finda o segundo capítulo do livro "A Pedra" (titulo provisório).

A PEDRA: cap.: I

LUCAS CONTA.

UM ENCONTRO COM A BRUXA!

(Em um dos vários lugares conhecidos como entre dimensões.)

Já fazia dias que eu estava caminhando sem encontrar nada. Minha única companhia era o silêncio do deserto. Dunas de areia cercadas pela ausência total de vida. Em alguns momentos eu tinha a impressão de estar passando pelo mesmo local: como se eu estivesse subindo e descendo as mesmas dunas. Os antigos contavam histórias de pessoas que morriam aprisionadas no deserto, ou acabavam possuídos por demônios. Por vezes tive vontade de voltar pro meu vilarejo, mas por fim acabava abandonando a ideia. Estava decidido a seguir em frente. Pode parecer estranho o que vou contar mas parecia que a luz solar de alguma forma me dava mais força. Como se os raios do astro recarregassem minhas energias. Coloquei a mão por baixo da minha camiseta e puxei um colar. Era um adorno simples feito pela minha irmã mais nova. Um pedaço de linha trançado em uma pedra vermelha sem valor. Fazendo isso lembrei-me da promessa que fizera a ela.
“Fique tranquila Esther, irei trazê-la de volta”  - falei em voz alta pra mim mesmo sem saber muito bem o porque. 
A lembrança de minha irmã fez com que eu sentisse saudades dela. Apesar de fazer apenas alguns dias que saí em minha jornada, sentia muita falta dela. No fim da tarde costumávamos sentar as margens do rio que circunda o vilarejo e jogar pedras na água pra ver quem conseguia fazê-la quicar mais vezes.
Estava perdido nas lembranças da minha irmã quando avistei uma forma. Estava longe. Não sou muito bom em calcular distâncias mas, estava há uns trezentos, quatrocentos metros. Não consegui distinguir o que era. Mesmo assim ou talvez por isso, meu corpo ficou em estado de alerta. Fiquei com raiva por ter recusado a espada que meu amigo CELIO me ofereceu. E se fosse um ladrão. Aí eu estaria em certos problemas, pois a única coisa de valor que eu tinha eram algumas moedas, e um cantil cheio de água, já que há alguns metros atrás jóquei minha túnica de linho fora. Talvez fosse pouco pra aplacar a ganância de um ladrão profissional.
Afastei esses pensamentos e disse pra mim sem muita convicção que deveria se tratar de uma miragem.
A autossugestão serviu pra espantar um pouco o medo porém, quando a forma chegou mais próximo, pude perceber que se tratava de um homem montado num cavalo. Estava todo coberto com uma túnica azul. Nem seu rosto era visível. Pronto. Minha jornada terminaria aqui mesmo, três dias depois de começar pois não teria força para lutar com um ladrão que por força da profissão, deveria ter que combater muito para não acabar preso ou morto.
Estando a uns trinta metros, talvez mais, já disse que não sou muito bom em calcular distâncias, o cavaleiro tirou o capuz e pra minha surpresa era uma mulher. Nesse momento tive certeza de ser uma miragem. Jamais uma mulher, por mais corajosa que fosse iria se aventurar pelo gigante de areia sozinha. 
Novamente as histórias dos antigos me vieram a cabeça só que com muito mais força que antes. E se fosse um demônio¿ o que eu faria¿   
Uma vez ouvi o sacerdote de meu vilarejo falando sobre o Dias do Demônio, quando cinco criaturas do mal poderosíssimas foram concebidas a despeito da vontade do Criador e, que elas espalharam muita dor e sofrimento durante muito tempo. Mas segundo o sacerdote isso foi a muito tempo quando o homem apenas engatinhava na terra e que não deveríamos no preocupar com isso. Mesmo assim, na solidão do deserto, o medo fazia parecer que fora ontem.
- Como alguém ousa desafiar o gigante de areia sozinho¿
A voz interrompeu meus pensamentos. Além de ser no mínimo estranho uma mulher sozinha no meio do deserto, ela trazia em um de seus ombros uma ave negra que não soube distinguir. Parecia um corvo mas não tinha certeza. Não pude deixar de reparar na beleza da mulher. O capuz de sua túnica pendia pra traz revelando uma longa cabeleira loira amarrada em forma de trança. Os olhos dela eram os mais bonitos que eu já tinha visto. Eram feitos de azul vivo que mais pareciam gotas do oceano. 
Confesso que a beleza da mulher me deixou mais tranquilo. Não poderia existir um demônio tão belo assim. 
“Anda, responda – falou a mulher.  E fique tranquilo. Não sou nenhum demônio. Sou apenas uma mulher solitária.”
A calmaria que sentira pela beleza da mulher se fora rapidamente. Acho que ela leu minha mente. Senti como se estivessem batendo dentro do meu cérebro. Tentando arrancar alguma parte dele. Decidi que sairia correndo. Me senti mal por não poder cumpri a promessa que fiz a minha irmã, mas o medo me dominara. 
Nem tive tempo pra isso. Quando me preparei para sair em retirada senti uma força em volta de mim que me impelia a ficar parado. Por mais que eu tentasse não conseguia sair do lugar.
 “Não corra. Já estou a muito tempo cavalgando e não estou afim de ter que perseguir um garoto assustado.”
Parei com a tentativa de sair correndo. Não havia jeito. Acho que era a mulher, usando de alguma magia, me impedia o movimento. Morreria ali mesmo pelas mão de um demônio. Talvez a bondade de deus fosse grande e ela me  matasse de forma rápida.
Na verdade, minha morte não seria nenhum absurdo. Muitos me advertiram que aquilo era loucura. Que não deveria me arriscar. Que minha busca não daria em nada, que provavelmente acabaria morto e não era isso que minha mãe iria querer pra mim.       
Lembrei de meu pai que me proibiu de ir e que ainda assim sai escondido em minha busca sem me despedir dele. No fundo eu sabia que era loucura, mas parecia que uma força dentro de mim ficava martelando dizendo que eu devia ir, que eu tinha a força necessária. 
Eu estava com o rosto abaixado. Quando olhei novamente para a mulher esta  estava com os olhos cravados no colar que Esther me deu. Ficou um tempo olhando como se estivesse em um transe. Reparei que o corvo ou que quer que seja aquilo no ombro dela começou a ficar agitado e a grunhir. O vento do deserto parou. Até o sol pareceu ficar mais fraco. Minhas pernas começaram a fraquejar. Por algum motivo tive certeza que se eu não falasse alguma coisa iria desmaiar. 
“Por favor, não me faça nenhum mal. Venho do Vilarejo Norte e estou a procura...
A minha voz tirou a mulher do que parecia ser um transe e tudo voltou ao normal. O corvo ficou quieto e calmo novamente, o sol voltou ao seu calor habitual  e o vento voltou a soprar.
“Eu sei o que você está a fazer Lucas. Só queria ter certeza de que era você mesmo. Nunca se sabe quando vamos encontrar um demônio por aí.”
Ela saltou do cavalo com a facilidade de quem domina a arte. 
“Como você sabe meu nome¿”
A mulher não respondeu de imediato. Voltou-se para o camelo e abriu uma bolsa de couro de carneiro que estava a marrada ao animal e tirou um cantil. Tomou um pouco de água e ofereceu pra mim
Um pouco receoso peguei o cantil e comecei a beber. Talvez a água estivesse envenenada mas não faria diferença. Se ela quisesse me matar acho que ela faria de qualquer forma.
Água. Fazia algum tempo que eu não tomava água. Desde ontem quando cheguei no deserto que não bebi um gole d’água . Sei que parece impossível. Com o calor que fazia era impossível ficar tanto tempo sem tomar água. Mas isso era fato. Desde que coloquei os pés no deserto tomei água nos primeiros passos depois não tomei mais. O meu cantil ainda estava cheio. Como me falaram que era um deserto pequeno que em quatro ou cinco horas de caminhada eu atravessaria ele, pensei em beber água quando chegasse na próxima cidade. 
Depois de satisfeito, devolvi o cantil pra mulher que o guardou novamente na bolsa. Seguiu-se um silêncio constrangedor e eu já ia dizer qualquer coisa quando a mulher começou a falar.
“Como disse, sei quem você é, e o porque de estar aqui no deserto e a impressão que você teve algumas vezes de estar passando pelo mesmo lugar várias vezes foi mais que impressão. Foi real. Não sei quanto tempo mas, já faz dias que está aprisionado no deserto. Pelas informações que consegui já fazem semanas. Desertos como este são uma morte em vida. A pessoa fica vagando por ele indefinidamente e nunca mais sai. Não sente sede nem cansaço e tem a impressão de que faz pouco tempo que chegou nele  Sorte sua não ter morrido. Pra falar a verdade não foi sorte, sorte foi eu ter te achado.”
Por um instante acreditei que tudo não passava de uma miragem ou que a mulher era louca. Aprisionado no deserto! Isso era uma lenda alimentada por gente supersticiosa. Se bem que desde que cheguei ao deserto nem cansaço nem sede me afligiram. Mas se ela realmente pode ler minha mente sabe que não tive isso.  
“Tá bom! Não acredito nesse negócio de aprisionado no deserto, é bobagem. Mas já que você afirma isso, como faço pra me libertar dessa prisão” – Falei com ar de desdém.
A mulher pareceu não se abalar. Tirou a túnica que estava usando. Por baixo usava roupa que achei estranha. Usava um colete de algum material que parecia rígido. Uma calça de linho velha e chinelo feito de algum tipo de árvore com tiras de bambu.
“Tome – ela deu a túnica pra mim – use isto. Com esse sol forte a chance de você morrer desidratado é muito grande. Não deveria ter jogado a sua fora. Monte no cavalo e ele te guiará pra fora do deserto. E uma recomendação. Não deixe esse seu colar na vista dos outros.” 
 Segurando o colar que minha irmã fizera eu disse que não tinha perigo pois era feito de material sem valor. 
“Mesmo assim não o deixe na vista dos outros, talvez algum ladrão possa confundir com algo de valor e pode lhe trazer problemas.”
Colocando o colar por debaixo da camiseta eu perguntei como a moça iria sair do deserto sem seu cavalo. Apesar de não acreditar nessa ladainha de aprisionado no deserto fiquei feliz por ela me oferecer seu cavalo mas não poderia aceitar o presente.
Olhei para o cavalo, um corsário branco muito bonito como eu nunca tinha visto. 
“Depois que você deixar o deserto estará na cidade Delta. Procure pelo boticário. É um senhor rabugento mas lhe dará abrigo e comida. Me espere por lá. Devo chegar um ou dois dias depois que você. E por favor tente não se meter em problemas.”
“Eu agradeço pelo cavalo mas não posso aceitar. Nem conheço você, a propósito, você não me disse quem é. E porque devo te esperar...
Num piscar de olhos a mulher não estava mais na minha frente. Fiquei  assustado. Procurei ao redor e nem sinal dela. Decidi que deveria sair dali logo mas não tinha certeza se deveria ou não ir no cavalo, a mulher era muito estranha sem falar que se não fosse um demônio, deveria ser no mínimo uma bruxa. Com certeza era uma bruxa. 
Acabei por montar no cavalo. Não poderia recusar uma ajuda dessas, até porque de alguma forma a mulher se fora. Quando chegasse até a cidade iria até esse tal de boticário e deixaria o cavalo lá e seguiria minha viagem.   

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Aqui finda o primeiro capitulo do livro "A Pedra", (título provisório).